terça-feira, 10 de abril de 2007
PARAPENTE SUGADO PELO CB MAIS UM ...
O aventureiro Juliano Gehlen ficou frente a frente com a chuva que assolou Passo Fundo no último sábado. Por mais de 30 minutos, o praticante de Parapente esteve preso dentro da tempestade enquanto fazia um vôo com o aparato
Daniel Bittencourt/ON
A chuva que caiu na cidade no último final de semana deixou várias famílias desabrigadas e causou alguns danos em ruas e vilas, mas ninguém a viu tão de perto como o engenheiro cívil e praticante de Parapente, Juliano Gehlen.
No sábado (31 de março) Juliano resolveu fazer um vôo rebocado com um parapente. Esse tipo de vôo é feito com uma caminhonete que tem um carretel preso na caçamba. Nesse carretel existe um cabo, que é preso no aparato. Quando o carro sai em movimento a pessoa que está no parapente pega velocidade, levanta vôo e daí se solta do cabo.
"Já faz um tempo que existe um pessoal que faz vôo rebocado e eu estava parado já faz alguns anos", diz Juliano. E naquele sábado ele e alguns amigos foram para o aeroclube de Passo Fundo voar de parapente. "Nós vimos que a tempestade estava chegando. Isso era no início da tarde. E nisso a gente resolveu fazer um teste para adquirir mais altura".
Nesse meio tempo o grupo já notava a tempestade, mas ainda dava tempo de fazer um vôo antes dela chegar. "E a gente fez as voltas, adquiri mais altura e quando eu estava a mais de 300 metros, eu percebi que estava subindo muito rápido e quando vi, a nuvem estava na minha cara".
O começo da tormentaNesta altura, Juliano resolveu se desconectar do cabo que o ligava ao carro e quando ele fez isso a tempestade estava lhe puxando a uma velocidade de 15 metros por segundo. "Eu estava subindo e meu variômetro marcando 15m/s e eu pensei: vou me tocar para o lado da cidade. Mas que nada", lembra.
A saída para tentar escapar da tormenta era fazer algumas manobras para perder altura. Como era a primeira vez em uma situação como essa, Juliano começou a fazer o aspiral (consiste em uma manobra em que a pessoa inverte sua posição de vertical para horizontal, ficando paralelo ao chão e girando rapidamente), mas foi em vão. Ele continuava subindo.
O pavor começou a bater, mas ele não se entregou. Partiu para outra tentativa. Fez a chamada "orelha", que é uma manobra onde a pessoa puxa as cordas externas do parapente para fecha-lo parcialmente. "O certo é você puxar as duas ao mesmo tempo, porque se você puxar somente um lado você pode entra em aspiral negativo, o que é perigoso. E eu cheguei a entrar em negativo, mas como a pressão era muito grande, eu não desci e desfiz a manobra".
Depois de mais um tentativa praticamente em vão, Juliano vê que não tem muitas chances de evitar a tempestade. Fez mais algumas manobras, mas nada que o ajudasse. Quando estava prestes a ser sugado pela nuvem, mais ou menos a uns 50 metros dela, ele soltou o paraquedas reserva. "O problema é que eu soltei ele e pensei: agora eu estou com sustentação dupla".
Dentro da tempestadeNesse momento, Juliano entra na nuvem e perde total controle. Sendo jogado de um lado para outro no interior da tempestade, a única solução seria a de recolher o parapente. E nessa tentativa, Juliano ficou uns 10 minutos enquanto continuava a ganhar altitude. "Eu cheguei a pensar em desconectar o parapente, o que seria um tremendo erro. Então continuei puxando. Eu consegui puxar a metade, mas nisso eu já estava exausto e ficando preocupado com a altitude que estava atingindo".
A altura, nesse ponto, estava em torno de 1,750 metros do nível do solo. Mesmo puxando o parapente e confiando na eficiência do paraquedas reserva, ele ainda continuava a subir. Quanto mais ganhava altitude, mais frio sentia em seu corpo. Para evitar uma hipotermia, Juliano resolveu se enrolar no próprio parapente que ele havia puxado pra si na tentativa de descer. "Eu sabia que quanto mais eu subisse, mais frio eu sentiria. E quando eu puxei todo o parapente, eu fiquei em uma posição totalmente horizontal, pendurado pelo lado direito, na altura da cintura, pois o reserva só possuía um tirante. E todo o esforço que eu fiz foi dobrado, porque eu tinha que me apoiar no tirante do paraquedas para tentar ficar na vertical e daí puxa-lo".
Mesmo fazendo todo esse movimento, Juliano continuava a ganhar altura. 2.100, 2.300, 2.500, 2.890 metros. Essa foi a última leitura, quando viu que precisava mesmo se enrolar no parapente para não morrer.
Entre o medo e a calmaO pensamento de morte chegou a passar por sua cabeça, mas ao mesmo tempo a visão de controle era presente. O momento crucial foi quando Juliano chegou a um ponto de dúvida. "Quando eu disse Meu Deus do Céu, eu pensei: e se ele existir? E comecei em um diálogo comigo mesmo. Se ele existir eu não vou pedir nada, por que eu vou estar sendo hipócrita, pelo fato de que sou ateu".
Depois que ele conseguiu recolher o parapente e ainda assim subindo, ele começou a ver que não tinha muitas alternativas. "Se eu tivesse uma faca ali comigo eu cortaria, porque eu não queria morrer congelado".
E nesse momento Juliano se acalmou. O clima ficou mais silencioso, por que estava em níveis mais altos e as prioridades básicas tomaram conta de seus atos. Primeiro ele precisava se aquecer. Por segundo, ele precisava pensar em algo para tentar descer. Era preciso puxar as linhas do paraquedas para tentar fecha-lo. "E faltava três dedos para que eu conseguisse alcança-lo. Eu via aquele tirante e aquelas linhas sumindo no branco.
Certamente Juliano passou dos 3 mil metros de altura (sem contar o nível da cidade com ralação ao mar). Depois dos 2.890 metros ele não conferiu mais a altura em que estava. Até este ponto mais de 30 minutos haviam passado. "Eu comecei a ficar sem força e estava completamente encharcado. E sempre uma parte do meu corpo ficava descoberta, mas eu estava limitado e fraco. Eu não podia mais gastar energia e vou me embrulhar aqui e ficar parado, mas eu estava consciente de que iria morrer. E nisso eu comecei a pensar coisas boas. Me lembrei dos momentos bons que passei com a minha última namorada e o filho dela que passei os últimos quatro anos juntos. Dos momentos bons que a gente passou. Dos momentos divertidos com os meus amigos mais próximos. Das coisas que eu iria deixar de fazer. Das coisas que eu tinha como problemas no dia dia e que na verdade não passam de bobagens", diz Juliano.
Aos poucos, o barulho do medidor de altura começa a reaparecer, mas ele não identifica se é por causa do aumento ou da diminuição da altitude. Ainda travando uma luta interna na tentativa de se manter consciente, Juliano começa a sentir uma chuva. Eram pingos enormes, como ele nunca havia visto até hoje. "E quando eu olho para baixo eu vejo uma névoa branca. E cada vez mais ela ia se dissipando e com isso aumentando a nitidez. E eu comecei a ver prédios e dei uma risada dentro da minha cabeça, aquela cena era muito linda. E daí me dei conta de que estava descendo na cidade e que isso é a pior coisa. Paraquedas de emergência que não é dirigível e com vento lateral? Era uma situação crítica. Minha preocupação eram redes elétricas, edifícios e cercas".
O segundo problemaMesmo fraco, Juliano fez uma rampa de projeção entre algumas árvores que ele avistou. Para não se ferir com as cordas do parapente, ele resolveu se soltar um pouco e nisso perde o capacete. Quando chegou mais perto da cidade, Juliano começa a perceber que os prédios que ele havia visto eram, na verdade, sepulturas do cemitério da Vera Cruz.
Juliano caiu em uma calçada batendo várias partes do seu corpo, sem que nenhuma fratura ocorresse. Depois de alguns segundo ele se levanta e vê todos aqueles túmulos "Poxa, é muito irônico isso aqui".
Ele levantou, retirou o equipamento e pegou o celular na tentativa de que ele ainda funcionasse. Conseguiu ligar o aparelho e chamou para um dos amigos que havia feito o reboque para o vôo, não conseguindo sinal. Tentou mais outro número e disse que estava no cemitério.
Depois de algum tempo o pessoal que estava no aeroclube chegou e resgataram ele, que foi levado até a emergência do Hospital São Vicente, onde foi atendido. Sua temperatura corporal estava a menos de 32ºC.
ParapenteO Parapente ou Paraglider é um aeroplano (aeronave mais pesada do que o ar), em cuja asa (inflável e semelhante a um pára-quedas, que não apresenta estrutura rígida) são suspensos por linhas o piloto e possíveis passageiros. O vôo de parapente é uma modalidade de vôo livre que pode ser praticado tanto para recreação quanto para competição. Diferentemente do paraquedas o parapente oferece um vôo dinâmico, onde o piloto pode controlar sua ascendência e direção, dependendo das condições metereológicas como velocidade do vento.
TempestadesExistem dois tipos de tempestades. As que são geradas em um processo térmico (ou tempestades de verão) e as que se formam no encontro de grandes massa de ar frio e massas de ar quente.
Uma grande diferença de temperatura entre ar quente que sobe e o ar frio das camadas é o fator decisivo para este processo. Numa tempestade térmica o ar, nas camadas, continua perdendo calor. A perda, porém, deve ser mais intensa que a perda normal do ar das térmicas que sobem, isto é, uma perda instável. A diferença de temperatura do ar que sobe (mais quente) e o ar em torno (mais frio) aumenta e como consequência, temos o aumento da velocidade de subida. Dentro da nuvem temos ainda um aumento maior em função do calor da condensação. Numa nuvem de tempestade o ar que sobe pode atingir uma velocidade de 150Km/H, com isso a velocidade do ar que desce também aumenta.
O dia depoisNo outro dia Juliano começou a pensar sobre o que havia acontecido. Tudo parecia uma grande ironia. Passar por uma situação de quase morte e ter pousado em um cemitério.
Para ele foi uma experiência muito estranha. O medo dele foi o de não ter medo da situação. "Teve um momento de pavor, de pânico, mas parecia que eu estava trabalhando naquela hora com duas mentes. Uma que me deixava sempre em equilíbrio e outra que estava fora, pensando em outra coisa. E o momento de pânico foi muito pequeno. Eu me disse que não iria ficar lá e isso me deu medo, essa reação me deu medo. Horas depois de tudo ter acontecido, me parecia que aquilo não havia acontecido comigo", diz ele.
A semana depois do incidente foi muito diferente. Possivelmente pela descarga de adrenalina, as atitudes e a forma de lidar com as coisas destoavam do seu modo normal de ser. "E essa descarga de adrenalina me deu outro tipo de medo. Me deu medo porque eu posso estar viciado nela (risos)".
Dentro da nuvemJuliano ficou quase 40 minutos dentro da nuvem. Sempre que ele esteve naquela situação ele conseguiu manter uma relação de tempo. Outra preocupação foi com relação aos raios, não pela descarga elétrica em si, mas também pelo efeito psicológico das descarga elétrica proximas. Mas durante todo o momento nenhuma descarga elétrica ocorreu.
O trajeto que a nuvem fez Juliano percorrer ficou em aproximadamente 11 quilômetros. A nuvem possui uma corrente que sobe e outra que desce fazendo um movimento circular. "Eu entrei na borda, ela me sugou e me jogou para o topo dela, possivelmente, e depois eu fui para o centro dela. Eu fiz uma volta inteira dentro da nuvem", diz.
segunda-feira, 9 de abril de 2007
SERRA DO ESPINHAÇO - FOTO SATELITE
A foto de satélite abaixo mostra o interessante fenômeno de bloqueio da massa de ar pela Serra do Espinhaço, em 2001 ou 2002 voltando do Nordeste voei por lá, inclusive ficando vários dias parado em Diamantina por conta de uma frente fria.
Abaixo os comentários da JP sobre a meteoro de lá...
Juiz Fora, como te disse antes, é uma encrenca. Tá sempre debaixo de camadas de stratus. É um lugar difícil. Assim como Sampa, o sudeste, e mesmo o leste, entra lá levando muita umidade que fica confinada.
Devo ter alguma foto guardada da barreira meteorológica de Minas. É muito interessante. Uma delas é a serra do Espinhaço. A nordeste tem o vale do Jequitinhonha, a leste o vale do rio Doce. Quando entra a circulação marítima lá, forma a camada de stratus e cumulos cobrindo toda a área, até o Espinhaço.Mas só passa para o lado oeste do Espinhaço, se o vento for intenso, se tiver alguma forçante de altitude também. Caso contrário, o que se vê é o lado oeste do Espinhaço (vale do São Francisco) sem nuvens e do lado de cá, tudo nublado.
Achei uma, mas com uma circulação fraquinha. De qualquer forma, dá para ver a dlimitação perfeita da serra. Voar para o lado de lá, no oeste do Espinhaço, é azul demais. Na Bahia, a barreira é o Planalto da Conquista, bem no sul, que prossegue como a Chapada Diamantina, outra barreira.
Estimo (TM) que essa "faixa" tem pelo menos uns 250-300km, circulação marítima forte.
